A terra que renasce: A perspetiva da comunidade de Gandua-Can após a inauguração da barragem
17 março 2025
Esperança renasce em Gandua-Can! Com a restauração da barragem, agricultores recuperam suas bolanhas e vislumbram um futuro mais próspero e sustentável.
Em Gandua-Can, a terra sempre foi o sustento da comunidade. Por gerações, a bolanha garantiu o arroz que alimentava as famílias e gerava renda para mulheres e homens da região. Mas, quando a barragem que controlava as águas se deteriorou, o ciclo da lavoura foi quebrado, e as dificuldades começaram.
A luta diária para sobreviver levou muitos a buscar outras formas de sustento. Mama Jassi, de 45 anos, agricultora de Can, viveu essa realidade na pele.
"Antes, tínhamos muito arroz. Eu podia até oferecer sacos de arroz, não havia dificuldades. Mas desde que a bolanha estragou, só Deus sabe o que passei. Quando chovia, não tínhamos onde plantar. Para conseguir dinheiro, ia comprar peixe no porto e vendia fora. Mas isso era muito cansativo. Eu queria continuar na lavoura, mas sem água para irrigação, o trabalho ficou ainda mais difícil."
Sem a barragem, as mulheres continuaram a lavrar como podiam, mas o esforço era dobrado e o retorno cada vez menor. Algumas buscaram alternativas, como a venda de peixe e a produção de óleo de palma, mas a terra continuava sendo sua maior esperança.
"Eu já não consigo carregar peixe na cabeça para vender. Quero trabalhar na lavoura, como sempre fiz, mas precisamos de mais apoio para facilitar nosso trabalho."
A Chegada da mudança: A reabilitação da barragem de Gandua-Can
Foi nesse cenário que, em novembro de 2024, o Projeto de Apoio ao Desenvolvimento Econômico das Regiões do Sul (PADES), financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e promovido pelo Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, deu início à reconstrução dabarragem de Gandua-Can.
A restauração da barragem trouxe vida nova para a comunidade. Agora, 280 hectares de bolanha foram recuperados, beneficiando seis tabancas e impactando diretamente 952 pessoas, incluindo 126 agricultores. O controle da água voltou a ser possível, permitindo que o arroz cresça novamente em condições favoráveis.
"Agora, trabalharei ainda mais do que antes," afirma Mama Jassi. "Mas ainda precisamos de ajuda. Se tivermos máquinas para lavoura, poderemos produzir com mais facilidade e menos esforço físico.”
A perspetiva de um novo futuro
Para Chico Cá, de 52 anos, agricultor e delegado regional de Quinara, a nova barragem representa uma conquista importante, mas ele sonha com ainda mais avanços.
"Antes, caminhávamos até três quilômetros para procurar outra bolanha para cultivar. Agora, com a barragem restaurada, podemos trabalhar aqui, perto de casa. Mas precisamos de uma segunda bolanha ainda maior, a Bolanha de Can, para que mais famílias possam beneficiar-se."
Legenda: Chico Cá
Além disso, a barragem trouxe outro benefício fundamental: o controle da vegetação que tomava conta da bolanha. Sem irrigação adequada, as palhas cresceram descontroladamente, tornando o cultivo ainda mais difícil.
"Se deixarmos a água na bolanha por um mês, ela matará as palhas. Antes, perdíamos muito tempo limpando a terra antes de plantar. Agora, o trabalho será mais rápido."
Chico também vê a barragem como uma oportunidade para garantir um futuro melhor para seus filhos.
"Se eu conseguir produzir arroz suficiente para comer e vender, poderei pagar os estudos dos meus filhos. Quero que eles estudem e tenham uma vida melhor, que possam ser alguém no futuro, como diretores ou até ministros."
A força das mulheres na agricultura
Mesmo com a barragem restaurada, uma coisa não mudou: são as mulheres que continuam a carregar o peso do trabalho na lavoura.
"Os terrenos são dos nossos maridos, mas somos nós que lavramos," conta Mama Jassi.
Além da lavoura, as mulheres também têm o desafio de sustentar seus filhos e garantir sua educação. Para isso, elas buscam diversificar suas fontes de renda e melhorar sua produção agrícola.
"Quando lavramos e colhemos, levamos comida para a mesa. Os homens comem o arroz que nós plantamos," diz Mama.
As mulheres da comunidade trabalham sob sol forte, plantam e colhem manualmente. Elas pedem acesso a equipamentos modernos, sementes de qualidade e treinamentos que possam facilitar o trabalho e aumentar a produtividade.
Juventude e agricultura: oportunidades para o amanhã
Para Emílio Alberto Alves Cá, de 37 anos, agricultor e estudante, a barragem representa uma oportunidade para os jovens.
"Se produzirmos nosso arroz aqui, poderemos economizar o dinheiro do caju para pagar os estudos dos nossos filhos, irmãos e até os nossos próprios estudos."
Antes da barragem, ele precisava caminhar quatro quilômetros todos os dias para conseguir trabalhar na lavoura. Hoje, com a infraestrutura restaurada, a vida mudou.
Mas ele também destaca que conhecimento é essencial para o futuro da agricultura.
"Queremos aprender mais sobre a bolanha, entender a lama, saber qual semente plantar. O governo pode nos ajudar colocando jovens para estudar mais sobre agricultura."
Os jovens da comunidade querem trabalhar, aprender e contribuir para o crescimento da produção agrícola, mas precisam de mais oportunidades e formação técnica.
Unidos pelo desenvolvimento sustentável
Apesar das dificuldades, a solidariedade sempre manteve a comunidade de Quinara e Tombali unida.
"Se um tinha arroz e outro não, nós dividíamos," conta Chico Cá. "Se alguém precisava de ajuda, ajudávamos. É assim que sobrevivemos até aqui."
Agora, com a barragem de Gandua-Can restaurada, os agricultores têm uma nova missão: garantir que essa estrutura seja bem cuidada para que continue beneficiando futuras gerações.
"Temos que tratar essa barragem com respeito. Se estragarmos, seremos nós que sofreremos novamente," alerta Chico.
O Caminho adiante
A restauração da barragem de Gandua-Can devolveu esperança e oportunidades às famílias da região. Mas há desafios a superar: falta de insumos, necessidade de máquinas, acesso à formação técnica e a busca por novas bolanhas.
Os agricultores, no entanto, estão prontos para trabalhar. Eles sabem que a terra voltou a lhes dar uma chance e que, com dedicação, poderão transformar essa oportunidade em um futuro melhor para suas famílias e suas comunidades.
"Queremos trabalhar. Queremos produzir. Queremos que nossos filhos tenham um futuro melhor," conclui Chico Cá.
A terra de Gandua-Can renasceu – e com ela, a esperança de um amanhã mais próspero e sustentável para toda a região.
Escrito por
Claudia Indami
PBF
Analista de Gestão do Conhecimento e Comunicação do Secretariado do PBF