Diálogo Nacional sobre Ação Climática: Análise do Discurso do Secretário-Geral da ONU e Oportunidades para a Guiné-Bissau
29 julho 2025
Um espaço de escuta, partilha e compromisso com o futuro sustentável da Guiné-Bissau.
No dia 29 de julho de 2025, a Guiné-Bissau acolheu uma análise coletiva do discurso do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Ação Climática, intitulado “Um Momento de Oportunidade: Impulsionando a Era da Energia Limpa”. O evento reuniu mulheres, jovens ativistas, empreendedores, políticos, jornalistas, investigadores, especialistas ambientais e representantes da sociedade civil, refletindo o caráter inclusivo e participativo do debate climático.
Reconhecendo que a energia é uma questão de interesse público, a ONU promoveu um painel com técnicos ambientais e representantes da sociedade civil, com o objetivo de recolher contribuições relevantes para fortalecer a ação climática no país.
Durante o encontro, os participantes partilharam opiniões que podem contribuir para melhorar a resposta nacional às mudanças climáticas.
Aissa Regalla, Diretora-Geral do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP), defendeu que “o país deve investir na melhoria de recolha sistemática de dados, na sua compilação, de forma a evitar dispersões e garantir a sua aplicação no apoio a tomada de decisões e formulação de políticas públicas”.
Soraia Rosangela Mole, representante do Youth Sounding Board do PNUD, destacou a importância de promover o desenvolvimento sustentável e a transição energética com base na participação comunitária, equidade de género, formação técnica e preservação dos recursos naturais.
“Deve-se promover o desenvolvimento sustentável e a transição energértica alinhados à ação climática, valorizando a participação comunitária, a equidade de género, a formação técnica em energias renováveis e a preservação dos recursos naturais como pilares essenciais para fortalecer a resiliência da Guiné-Bissau face às mudanças climáticas”.
Malam Braima Sambu, Vice-Presidente da Liga Guineense dos Direitos do Ambiente – Vigilantes da Natureza, afirmou que a “transição para energias renováveis representa uma oportunidade estratégica para a Guiné-Bissau, não apenas em termos ambientais, mas também como motor de desenvolvimento económico...”). Acrescentou que essa transição deve integrar eficiência energética, descarbonização e digitalização.
Vladimir Cuba, Presidente do Conselho Nacional da Juventude, sublinhou o papel essencial da sociedade civil na monitorização e responsabilização da implementação das ações climáticas.
“Acredito que a juventude deve deixar de ser apenas alvo das políticas e passar a ser autor das soluções, especialmente na transição energética que o país tanto precisa” disse Dembo Mané, ativista ambiental e fundador da Nanque Psicultura.
Divaldino Mendes, engenheiro de energia e Coordenador do Projeto de Mini Redes de Energia, reforçou a importância de incentivar os jovens a seguir carreiras nas ciências exatas.
“Incentivar os jovens a enveredar pelas ciências exatas é investir no futuro das estratégias climáticas do país. O sol, o vento e o lixo - é a solução para a energia renovável”.
O Ministro do Ambiente, Biodiversidade e Ação Climática, engenheiro Viriato Cassamá, destacou que “a questão do ambiente é uma questão de cidadania, e a crise climática exige rotura com modelo energértico e aceleração da transição para energias limpas”.
Alessandra Casazza, Coordenadora Residente interina da ONU e Representante Residente do PNUD Guiné-Bissau felicitou a Guiné-Bissau, através do seu Governo, por alcançar o ODS 13 sobre Ação Climática e iniciar a elaboração da primeira política nacional de energia — um passo estratégico para a mobilização de recursos e uma gestão energética eficaz e inclusiva. Para ONU, este sucesso representa um marco de liderança em resiliência climática e desenvolvimento sustentável, demonstrando que, mesmo com recursos limitados, o compromisso do Governo e das comunidades pode gerar avanços significativos na resposta aos riscos climáticos.
De acordo com Orlando Mendes, doutorando em Caracterização Agroclimática das Regiões Costeiras da Guiné-Bissau, nos últimos 40 anos, a precipitação na Guiné-Bissau tem revelado uma variabilidade intra-anual, caracterizada pelo atraso do início da estação chuvosa, pela concentração das chuvas em poucos meses e pelo aumento da intensidade e frequência de dias com precipitação extrema.
“Estas condições têm levado à saturação dos solos e à ocorrência de inundações, como em 2020, com prejuízos significativos na produção agrícola e impactos em vários sectores. Não se observou as mudanças significativas em termos de volumes dos totais anuais durante o perdido. Como estratégia de adaptação à redução do período chuvoso, muitos agricultores recorreram a variedades de ciclo curto. No entanto, o aumento contínuo das temperaturas neste período tornou essas variedades mais vulneráveis, devido ao encurtamento do ciclo vegetativo, uma tendência que poderá agravar-se no futuro"
“A dinâmica costeira da Guiné-Bissau exige atenção urgente: a erosão está a consumir terras valiosas, enquanto a acreção, embora benéfica em algumas zonas, permanece pouco monitorizada. É imperativo investir em infraestruturas de proteção costeira baseadas em dados científicos, ao mesmo tempo que se fortalece tecnicamente e institucionalmente entidades como o Instituto Nacional da Meteorologia e o Instituto da Biodiversudade das Áreas Protegidas, garantindo-lhes acesso a tecnologias modernas, formação contínua e financiamento sustentável. A criação de uma plataforma nacional integrada de dados ambientais permitirá harmonizar informações, facilitar análises interinstitucionais e reforçar a transparência pública" - sublinhou Dr. Namir Lopes, Coordenador do Projeto APICA-GNB (Adaptação dos Sistemas de Produção Agrícola nas Zonas Costeiras do Noroeste da Guiné-Bissau).
Soluções Identificadas pelos Participantes
Entre as soluções propostas para fortalecer a ação climática na Guiné-Bissau, destacam-se:
Promoção de diálogos sobre clima em universidades, escolas, rádios e espaços juvenis;
Inclusão da educação ambiental nos currículos escolares;
Reforço do papel da juventude na formulação e implementação de soluções climáticas;
Criação de espaços permanentes de diálogo e co-gestão de projetos climáticos;
Envolvimento ativo das comunidades locais nas decisões sobre o clima;
Fortalecimento da sociedade civil na advocacia e pressão pública;
Desenvolvimento de políticas de energia renovável para substituir os combustíveis fósseis;
Investimento em iniciativas resilientes e proteção dos recursos naturais;
Mapeamento e valorização de modelos tradicionais de proteção ambiental.
Recomendações dos Painelistas
Os painelistas também recomendaram:
Reforçar centros de investigação ambiental;
Criar bases de dados climáticos acessíveis;
Documentar e valorizar práticas comunitárias de adaptação;
Definir metas realistas de redução de emissões;
Integrar a ação climática nos planos de desenvolvimento nacional;
Atrair financiamento climático com transparência;
Envolver a sociedade civil na monitorização dos compromissos;
Priorizar soluções de baixo custo e alto impacto;
Incentivar a inovação local e o uso de tecnologias limpas.
Estamos a atualizar a plataforma do website da Equipa das Nações Unidas no país para a tornar mais clara, rápida e acessível.
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